A Grande Roma. Lendária, vitoriosa, esplendor da civilização. O maior de todos os impérios que já havia existido sobre a face da terra tinha em Roma uma Capital à altura". Diz uma lenda que foi fundada por Rômulo e Remo, descendentes de Enéias, um guerreiro troiano. Abandonados ao nascer, foram alimentados por uma loba. A arqueologia mostra que a cidade foi estabelecida em 753 a.C., à mesma época em que o profeta Isaías realizava seu ministério em Judá.
O princípio da expansão e da manutenção do domínio de Roma esteve na formação de um exército profissional permanente, bem treinado, com recrutamento universal e formado por soldados com direito à cidadania romana caso prestassem bons serviços. Era um exército menos dado ao heroísmo e mais à organização coletiva. Desenvolvia armas e tecnologias de combate inovadoras, contando com um bom corpo de engenheiros e rápida mobilidade. Isso permitia que Roma governasse o mundo com relativamente poucas forças militares, ágeis, letais, nitidamente superiores em armas e capacidade de mobilização³. Um exemplo que a Doutrina EUA-Bush tenta imitar no início do Século 21, cujos testes já se deram no Iraque invadido.
Com um exército extremamente bem treinado, os romanos aproveitavam-se da cultura dos povos conquistados, enriquecendo a sua própria. Ao invés de apenas invadir, destruir e abandonar, depois de vencidas as batalhas construíam verdadeiras maravilhas urbanísticas, além de encontrar "colaboracionistas" que governavam, cobrando régios impostos que sustentavam o Império.
Conquistaram Jerusalém em 170 a.C. Para aproximar mais nossos estudos, saltemos para Herodes, o Grande - Mateus 2:1. Ele mesmo, aquele que matou as criancinhas nascidas em Belém nos dias que Jesus veio ao mundo. Este mesmo Herodes, no ano 30 a.C., negociou com Otaviano (também designado César Augusto - Lucas 2:1), sobrinho de Júlio César (o primeiro imperador a concentrar em suas mãos todo o poder) para permanecer no trono da Judéia. Para se ter uma idéia de quem foi esse homem, leia alguns de seus atos: afogou "por acidente" seu jovem cunhado Aristóbulo, matou seu tio José como adúltero, executou sua esposa preferida Mariana e matou vários filhos que imaginava conspirarem contra ele.
Não é de se admirar que tenha mandado matar, em meio à sua paranóia, todas as crianças com menos de 2 anos nos arredores de Belém - Mateus 2:16. Isso por simplesmente ouvir sobre um novo Rei que dali surgiria - Mateus 2:2-3. Seus filhos Herodes Antipas e Filipe foram nomeados por um imperador romano, Tibério César, 'governadores de quartas partes' (tetrarcas) sobre os judeus - Mateus 14:1 e Lucas 3:1,19. Herodes Antipas matou João Batista - Marcos 6:17-29, e acreditava que Jesus era o mesmo João Batista ressuscitado -Mateus 14:1-2. Governou de 4 a.C. a 38 d.C. Julgou Jesus e transferiu o problema para Pôncio Pilatos - Lucas 23:6-12. Foi ferido por um anjo do Senhor - Atos 12:20-23.
O Império Romano como que preparou o caminho para a pregação do evangelho por todo o mundo. A paz imposta por Roma, a manutenção da lei e da ordem, a tolerância religiosa, as grandes estradas, o comércio intenso que permitia alta mobilização nas fronteiras e os tribunais romanos - o Direito Romano em a base da organização das nossas leis atuais - deram condições para as viagens missionárias dos apóstolos. Tudo isso facilitou a divulgação das boas novas a todos os povos. Um cidadão romano não podia ser amarrado ou aprisionado sem julgamento. Não podia ser açoitado. Se não achava que estava sendo tratado com justiça, podia apelar para Roma. Paulo usou desse direito algumas vezes, como em Filipos - Atos 16:22,23, 37-40; e em Jerusalém - Atos 22:25-29.
César Augusto instituiu nas províncias a adoração a Roma e a César, como forma de demonstrar fidelidade. Em todo o império, apenas os judeus foram liberados de prestar culto ao líder político. Depois dele, governou Tibério. Após este, Calígula proclamou-se deus e ordenou que fosse colocada uma estátua do deus júpiter no templo em Jerusalém, com suas feições. Morreu sem lograr êxito. Cláudio, seu sucessor, tornou a isentar os judeus do culto imperial. Expulsou os cristãos de Roma por causa dos conflitos havidos entre estes e os judeus - Atos 18:2. Nero, que sucedeu Cláudio, incendiou Roma em 64 d.C e culpou os cristãos. Foi quem mandou matar Pedro (segundo a tradição, crucificado de cabeça para baixo) e Paulo (decapitado). No século 4, o imperador Constantino determinou que o cristianismo se tornasse a religião oficial do Estado.
A estrutura de violência que sustentava a Pax Romana foi usada na decisão e execução do assassinato de Jesus. A acusação - Rei dos judeus, Mateus 15:26 - indica claramente a razão: um pertubador foi retirado do caminho, de maneira legal, para manter a paz romana. Vê-se por aí que a paz proposta por Jesus era algo diferente da Pax Romana, como podemos observar em Colossenses 1:20, Efésios 2:14 e João 14:27.
Jesus constata a opressão - Mateus 10:42-45, e aponta um outro caminho a seus discípulos. Sua opinião sobre os poderosos dominadores não era das mais lisonjeiras - Lucas 13:31 e Mateus 11:8. Sua revolução era de baixo para cima - Mateus 10:34 com Miquéias 7:6. A começar em mim, pelo conhecimento da Palavra e sua aplicação para entender o mundo.
A Pax Romana pressupunha que a violência deveria acontecer permanentemente nas bordas do império para que Roma, no centro, ficasse em paz e próspera, com seus mármores, riquezas, casas de banhos, orgias, glutonarias, esportes e espetáculos. O dinheiro fluía para a Capital graças à exploração de povos e nações.
Os herodianos - partidários de Herodes, vide Mateus 22:15-22 e Lucas 20:20 - achavam que a Pax Romana era boa em última instância. Não só pela relativa estabilidade que trazia ao mundo com também por permitir que os de Herodes permanecessem no poder. Eram pragmáticos, do tipo de se acomodarem com a observação: 'ruim com ele, pior sem ele'. Ao se aproximarem de Jesus, buscavam algum tipo de resposta que permitisse acusação de traição ou sublevação popular. Os judeus tinham muita dificuldade de aceitarem o pagamento de tributos a uma autoridade estrangeira, sendo que a terra tinha sido dada a eles por Deus. Portanto, a resposta de Jesus sobre os tributos era de vital importância para seu ministério dali em diante. Afinal, seria Jesus um líder religioso revolucionário que conduziria os judeus a lutar, com violência, contra os romanos?
A resposta de Jesus aponta muitos caminhos de interpretação: "Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". O império romano poderia ficar com toda a riqueza do mundo, isso não importava a Jesus. O que importa é servir a Deus antes de servir aos homens e buscar o que realmente importa - Atos 5:29. O limite de nossa obediência a autoridades terrenas foi estabelecido quando Cristo pediu para destinarmos a 'Deus o que é de Deus'. O Capítulo 13 da carta de Paulo aos Romanos fica claramente dividido entre até onde obedecer as autoridades - até o versículo 7 - e onde começar a desobedecer, não só líderes mundanos como a própria lógica do mundo - versículo 8 em diante.
Para Jesus, ao contrário dos herodianos, a Pax Romana não era suficiente, pois incentivava o individualismo (eu em primeiro lugar, o resto que se 'dane'), o hedonismo (o que importa acima de tudo é o prazer, mesmo que para isso somente eu tenha prazer) e o secularismo (desacreditar na intervenção sobrenatural de Deus na história humana). Hoje em dia o que a mídia e nossas relações humanas parecem pregar é: eu e minha família estando bem, que me importa o resto? Meu país está ótimo, para que me preocupar com o resto?
Por isso Jesus afirmou: "Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada". Cristo não podia concordar com uma pretensa paz excludente, baseada na violência, na dominação e na exploração do outro. Por isso avisa aos que querem se tornar cristãos como seria a dedicação necessária para servi-Lo: abrir mão de amar qualquer pessoa mais que a Jesus, tomar a cruz da auto-renúncia para viver plenamente o evangelho.
Quem imagina ter encontrado o domínio da situação para viver confortavelmente está errado, pois vai perder sua vida - Mateus 10:34-39. Todo os resto perde o sentido caso não esteja Cristo colocado no centro de todas as atenções. É preciso compartilhar da carne e do sangue de Jesus para viver plenamente o evangelho - João 6:51-58. É preciso morrer um pouco a cada dia, odiar a vida nesse mundo para servi-Lo - João 12:24-26. Para um verdadeiro crente não existe a indiferença. É preciso aprender a odiar essa pregação mundana que pobreza é natural, que a evolução natural determina que sempre existam os mais fracos para serem explorados, que mais importa é 'eu' estar bem ainda que meu vizinho esteja no caos absoluto - físico, financeiro, emocional ou espiritual. Achar que não dá tempo para atender a quem precisa conversar ou de apoio para se levantar.
Não há nada no mundo que valha a pena ganhar, caso percamos nossa alma - Marcos 8:34-36. O verdadeiro crente é permanentemente revoltado contra essa paz que tentam nos impor, que coloca os pobres e marginalizados nas periferias e os esquece lá (assista ao filme 'Cidade de Deus' ou visite uma favela para entender melhor). Contra esse sistema que privilegia a satisfação sexual unicamente com base no uso do corpo alheio, sem limites de respeito ao outro, tornando as pessoas como que objetos descartáveis, indo contra os relacionamentos familiares duradouros. É preciso comprar muitas brigas - sem usar a violência - para impedir essa tendência maligna que se instalou na lógica mental da humanidade, a lógica da morte, a lógica do absurdo.
Para o crente, só há uma maneira de fazer isso tudo: instalar, alimentar e viver pela esperança - Romanos 8:24-25. Uma esperança que não é imobilizadora, mas sim que move rumo ao outro, rumo à transformação pessoal e social, rumo à busca de enxergar tudo que temos e somos à luz da esperança que Cristo nos dá.
A Pax Romana aponta o caminho do mundo atual, que abandona as pessoas e o meio-ambiente ao 'inferno' para garantir os lucros e o bem-estar de poucos.
A PAZ de Cristo excede esse entendimento e guarda corações e mentes dessa mentalidade mundana - Filipenses 4:7. Que a PAZ e a ESPERANÇA que só Cristo traz possam nos moldar para o serviço a Ele. Pela misericórdia de Deus. Amém.
Igreja Metodista em Santa Tereza
Belo Horizonte(MG)
Escola Dominical Classe de Jovens - 10/08/03
Luciano Sathler R. Guimarães
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